A explosão do verão que permanecerá
O Banjo Novo se afirma como um dos movimentos culturais mais relevantes da Salvador contemporânea não apenas pela dimensão do público que mobiliza, mas sobretudo pela densidade simbólica que sustenta sua existência. Ele não nasce para preencher uma lacuna de mercado nem para responder a uma demanda de consumo previamente estabelecida. Surge, antes, como continuidade de uma forma de estar junto que antecede a lógica do produto e do espetáculo. Sua força está enraizada em práticas culturais negras que historicamente organizaram sociabilidade, memória e pertencimento, tendo o samba como uma de suas principais expressões.
Compreender o Banjo Novo exige, portanto, ultrapassar a noção de evento pontual ou atração musical. Trata-se de uma experiência cultural continuada, que se constrói no tempo e na repetição do encontro. Essa dimensão processual explica por que o projeto não se esgota na performance sonora. Música, corpo, ritual, visualidade, território e comunicação se articulam de forma indissociável. Cada edição reafirma um pacto coletivo entre quem toca e quem participa, produzindo uma comunidade temporária que se reconhece nos códigos do samba, da ancestralidade e da ocupação do espaço urbano como direito cultural.
Começo e fundação. O encontro com a origem
O Banjo Novo surge a partir de encontros informais organizados por Samora Lopes e Igor Nascimento Reis, em um contexto deliberadamente distante da lógica institucional da cultura. Sua fundação está diretamente vinculada à vivência cotidiana do samba enquanto prática comunitária, e não como espetáculo mediado por palco, contrato ou programação formal. Esses primeiros encontros reproduziam uma lógica ancestral da roda, em que a música existe porque há gente reunida, disposta a compartilhar tempo, escuta e presença.
Essa origem sem pretensão mercadológica é decisiva para compreender a lógica formadora do Banjo Novo. A escolha de manter a roda como estrutura central, sem hierarquias rígidas ou separações físicas entre músicos e público, institui uma horizontalidade que permanece mesmo com o crescimento do projeto. O que se consolida ao longo do tempo não é apenas um formato replicável, mas um modo de fazer cultura sustentado pela confiança, pela continuidade do encontro e pela fidelidade a um princípio coletivo que se recusa a ser diluído.
Samba de roda com cara de Bahia
O sentido musical do Banjo Novo se ancora no samba de roda como matriz, mas se afasta conscientemente de qualquer ideia de preservação estática ou museificada. O que se constrói ali é um samba atravessado pela Bahia em sua complexidade contemporânea. O repertório dialoga com tradições do Recôncavo Baiano, mas também com sambas urbanos, cantos amplamente conhecidos do público e improvisações que emergem da própria dinâmica da roda.
Essa musicalidade produz uma escuta ativa e compartilhada. Não há roteiro fechado nem sequência previamente definida. A música responde ao ambiente, ao público, ao tempo da vela e à energia coletiva que se estabelece a cada edição. Esse modo de tocar reafirma o samba como linguagem viva, capaz de se atualizar sem romper com suas bases históricas. Em vez de adaptar o samba às exigências do mercado, o Banjo Novo submete o tempo do evento ao tempo próprio do samba, invertendo uma lógica dominante no entretenimento.
Elementos simbólicos. Instrumento, corpo e ritual
Os elementos que estruturam o Banjo Novo não funcionam como ornamentos estéticos, mas como fundamentos da experiência. O banjo, enquanto instrumento condutor, carrega uma longa história de adaptação e invenção dentro do samba brasileiro. Sua centralidade no projeto não é casual. Ele marca o ritmo, organiza a roda e simboliza a continuidade de uma tradição popular que sempre encontrou caminhos para se reinventar diante das transformações sociais.
O vestir branco e a vela acesa aprofundam esse campo simbólico e ritual. O branco estabelece conexões diretas com códigos das religiões de matriz africana e com uma ética do respeito, da ancestralidade e do cuidado coletivo. A vela, por sua vez, institui um regime de tempo próprio. Enquanto ela permanece acesa, a roda existe. Esse gesto reorganiza a relação do público com o tempo, suspendendo a lógica do entretenimento cronometrado e criando uma experiência de presença prolongada, atenção compartilhada e permanência consciente.
O Banjo Novo e a internet. Tradição expandida
A relação do Banjo Novo com a internet se constrói de forma orgânica e estratégica, sem subordinação a modelos tradicionais de divulgação. O projeto se expande no ambiente digital sem abrir mão da centralidade do encontro físico. Os registros que circulam nas redes não operam apenas como material promocional, mas como extensão simbólica da roda. Vídeos feitos pelo público, transmissões espontâneas e imagens compartilhadas constroem uma memória coletiva que fortalece o sentimento de pertencimento.
Essa dinâmica revela uma articulação madura entre tradição e tecnologia. A internet não substitui a experiência presencial nem a esvazia. Atua como ferramenta de ampliação, documentação e convocação. Ao circular no digital, o Banjo Novo reforça o desejo de presença, de vivenciar aquilo que a tela apenas sugere. O virtual, nesse caso, não concorre com o território físico, mas o potencializa.
Muito além do mercado. Cultura como valor em si
Um dos aspectos mais consistentes do Banjo Novo é sua relação crítica com a lógica de mercado. Embora dialogue com circuitos de entretenimento e mobilize grandes públicos, o projeto não se organiza prioritariamente como produto. Suas decisões estéticas, simbólicas e temporais não partem de pesquisas de consumo ou tendências de mercado, mas de compromissos culturais assumidos desde sua origem.
Essa postura produz um deslocamento relevante no campo cultural. O Banjo Novo demonstra que é possível alcançar visibilidade e sustentabilidade sem submeter a cultura negra a processos de esvaziamento simbólico
O crescimento acontece porque há coerência interna e continuidade de princípios, não porque há adaptação oportunista. Nesse sentido, o projeto se aproxima mais da tradição dos movimentos culturais do que de eventos formatados para consumo rápido.
Antirracismo como prática cultural
O Banjo Novo realiza uma prática antirracista contínua ao positivar referências negras no espaço do lazer, da festa e da vida noturna da cidade, operando aquilo que Carlos Leal formula em seu livro, Racismo X Antirracismo, como enfrentamento cotidiano a uma guerra simbólica permanente contra a população negra. Em vez de tratar o racismo como exceção, desvio ou episódio pontual, o projeto atua no mesmo terreno onde historicamente se produziu o apagamento, o da cultura, do imaginário e da experiência sensível. Símbolos ligados às religiões de matriz africana, práticas culturais historicamente marginalizadas e estéticas negras são apresentados como parte orgânica da vivência coletiva. Não há discurso pedagógico explícito nem mediação didática. O aprendizado acontece pelo corpo, pela repetição, pela permanência desses códigos no espaço público e pela naturalização de sua presença.
Essa atuação é especialmente potente porque incide diretamente sobre o imaginário coletivo, dimensão que Carlos Leal identifica como central na sustentação das hierarquias raciais. Ao ocupar ruas, largos e espaços simbólicos de Salvador com esses códigos, o Banjo Novo produz uma forma concreta de reparação simbólica, não institucionalizada e não tutelada. A negritude passa a ser associada à alegria, ao cuidado, à organização coletiva e à sofisticação cultural, deslocando narrativas que historicamente vincularam corpos negros à ausência, à carência ou ao conflito, dimensões que existem, mas não são as únicas em em nossas vidas.
Nesse sentido, o Banjo Novo não se limita a denunciar o racismo. Ele desorganiza seus fundamentos ao construir, na prática, outras formas possíveis de ver, viver e desejar a cultura negra no cotidiano da cidade.
A explosão do verão 2026. Consolidação de uma linguagem
O verão de 2026 marca um ponto de consolidação do Banjo Novo como fenômeno cultural em Salvador. O crescimento expressivo de público, a circulação intensa nas redes e a ocupação de espaços estratégicos da cidade indicam que o projeto ultrapassa o estatuto de evento recorrente. Ele passa a operar como referência de linguagem cultural, influenciando modos de fazer, comunicar e ocupar a cidade.
Esse momento de expansão não representa ruptura com a origem, mas confirmação de um percurso. O Banjo Novo demonstra que projetos enraizados em práticas culturais consistentes podem crescer sem se descaracterizar. No verão de 2026, o Banjo Novo não apenas acompanha a cidade. Ele contribui ativamente para redesenhar a forma coma Bahia e o Brasil vivem o samba, a noite e o encontro coletivo. Será o primeiro carnaval tocando oficialmente, e com certeza, será histórico.
Herlon Miguel é bacharel em Administração. Especialista em comunicação Estratégica pela Universidade Federal da Bahia. Escritor e produtor cultural, atua na interface entre palavra e ação, fazendo da escrita um instrumento de formação, reflexão e transformação social. Idealizador da Escola de Literatura Negra, voltada à formação e ao lançamento de autoras e autores negros, também fundou o Negrito LAB, espaço dedicado à comunicação e ao pensamento crítico sobre raça, cultura e política. @miguelherlon.
Fonte: Herlon Miguel

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Miguel Cruz | 9 de out. de 2023 | 3 min de leitura
O racismos nos espaços de poder
Nos últimos dias, fomos surpreendidos por uma notícia que terá um impacto significativo na vida das pessoas em todo o Brasil: a crise política envolvendo Marcelle Decothe, ativista política do Rio de Janeiro que ocupava o cargo de assessora especial da Ministra da Igualdade Racial, Aniele Franco.
É fundamental começar qualquer reflexão sobre esse evento prestando toda solidariedade a Marcelle. Seu erro, que foi a sua conduta ao fazer uma postagem informal, foi um equívoco com sérias consequências políticas e narrativas. No entanto, esse equívoco não justifica o linchamento público que ela vem sofrendo. Este episódio não deve apagar sua trajetória e suas valiosas contribuições para as lutas em prol do nosso povo, e esperamos que ela possa aprender e crescer com essa experiência.
O grande problema aqui é que, ao ocupar um cargo institucional, é de extrema importância manter uma postura institucional, mesmo quando nos manifestamos em nossas redes sociais pessoais. Isso ocorre porque, ao assumirmos uma posição oficial de representação e gestão pública, nossas opiniões, especialmente durante o exercício de nossas funções, refletem diretamente a posição da instituição que representamos.
Essa necessidade de manter uma postura institucional colide, atualmente, com o que podemos chamar de “plataformização” da política. Isso se refere à crescente demanda para que figuras públicas e ativistas se envolvam em dinâmicas de mobilização e engajamento nas redes sociais. A extrema-direita, representada por líderes como Trump e Bolsonaro, tem se destacado nesse ambiente, enquanto a esquerda busca acompanhar esse movimento, priorizando a busca por “curtidas” e “likes”, muitas vezes sem uma reflexão crítica sobre como essa presença virtual pode entrar em conflito com os interesses públicos e as responsabilidades inerentes aos cargos oficiais. Isso pode até mesmo prejudicar a luta mais ampla da esquerda contra o bolsonarismo.
Essa situação se torna ainda mais crítica quando consideramos o impacto do racismo e do machismo, como foi o caso de Marcelle e Aniele. É inegável que o racismo perpetua a subjugação constante das pessoas negras. A oportunidade que o racismo busca é a de afirmar: “Você vê, o preconceito também vem dos negros?”.
Tudo indica que, com a saída da assessora, a crise deve esfriar, permitindo que a Ministra Aniele prossiga com seu importante trabalho no governo Lula. Entretanto, é fundamental que saiamos deste triste episódio com um entendimento mais sólido sobre como lidar com situações desse tipo, especialmente para estimular a autorreflexão dentro da esquerda brasileira.
O linchamento político de pessoas negras é um padrão que muitas vezes resulta em julgamentos severos por ações que, embora possam ser equivocadas, são frequentemente de menor relevância. Essas ações são infladas de maneira a amplificar suas repercussões e influenciar a opinião pública a desqualificar líderes por motivos alheios às suas habilidades técnicas e suas realizações.
Nessa jornada, nomes de lideranças negras são enfraquecidos na política, a ponto de, com poucas exceções, não serem considerados para cargos relevantes.
Recordemos o caso da Ministra Matilde Ribeiro, que, influenciada por um funcionário, fez uso equivocado do cartão corporativo e, como resultado, perdeu o cargo. Da mesma forma, o então Ministro Orlando Silva foi destituído por consumir uma tapioca com o cartão corporativo, e a então Ministra Benedita da Silva foi demitida por ter comparecido a uma igreja durante uma viagem internacional. Todas essas punições revelam mais sobre o racismo do que sobre a responsabilidade no uso dos recursos públicos.
A Ministra Aniele possui um currículo excepcional na defesa dos direitos humanos e uma longa trajetória de contribuições ao antirracismo. Uma crise política gerada por um incidente como esse é, em essência, um reflexo do racismo. Enquanto gestores incompetentes muitas vezes são protegidos e defendidos, gestores negros e negras podem enfrentar consequências severas por infrações menores.
É fundamental que, nesse contexto de luta política, nossos aliados e a esquerda como um todo combatam o racismo em suas formas menos evidentes, compreendendo as complexidades e subjetividades envolvidas. O racismo estrutural não só resulta na demissão, mas também mina a trajetória e a imagem das pessoas negras.