Das barracas derrubadas aos vídeos virais
Coletivo “O Corre” e a potência criativa das periferias digitais
A força criativa das periferias nunca dependeu da permissão do Estado. A mesma energia que fazia brotar barracas, improviso e comércio nas praias de Salvador se transformou em comunicação digital. O celular substituiu o tabuleiro, e o conteúdo virou mercadoria simbólica. É nesse contexto que surge O Corre
O mercado de trabalho em Salvador sempre foi marcado pela informalidade. Segundo dados do IBGE de 2023, mais de 45% da população economicamente ativa da capital baiana está inserida em ocupações sem carteira assinada. Isso inclui vendedores ambulantes, garçons, caixas de pequenos comércios e trabalhadores de barracas de praia, uma rede que historicamente sustentou famílias e movimentou a economia popular da cidade. Nas periferias, essa informalidade é também sinônimo de criatividade e sobrevivência: o trabalho se reinventa a cada dia, e o talento se manifesta fora das estruturas formais do mercado.
Durante anos, as praias de Salvador foram o palco mais visível dessa economia. As barracas, muitas delas administradas por mulheres negras, eram pontos de encontro, lazer e cultura. Representavam o que a cidade tem de mais autêntico: a mistura entre trabalho, convivência e festa. No entanto, no início dos anos 2000, a política de “requalificação” urbana colocada em prática pelo então prefeito João Henrique de Barradas Carneiro (2005-2012) levou à retirada dessas barracas sob o argumento de devolver as praias ao uso público.
Tecnicamente, a ação foi motivada por uma série de fatores entrelaçados. Primeiro, identificou-se que muitas barracas ocupavam irregularmente a faixa de areia, inclusive em terrenos sob jurisdição federal, pois o órgão Secretaria do Patrimônio da União (SPU) apontou que não havia autorização para equipamentos naquele trecho costeiro. Em segundo lugar, o projeto de requalificação da orla assinava parcerias público-privadas com grandes marcas para a padronização dos equipamentos, o que gerou conflitos com o uso popular existente. Em terceiro lugar, havia exigências ambientais: o Ibama e o Ministério Público Federal apontaram que as reformas e ampliações das barracas haviam ocorrido sem o licenciamento necessário na faixa costeira, violando o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro (Decreto 5.300/2004) e gerando impactos sobre dunas, vegetação de restinga e a própria franja da praia. Como resultado dessas instâncias judiciais e de licenciamento, em 2010 a demolição foi ordenada judicialmente: a Prefeitura cumpriu determinação da Justiça Federal de remover cerca de 349 barracas que se encontravam em terreno federal ou sem as autorizações adequadas.
O que se perdeu naquele processo não foi apenas renda, mas também um ecossistema simbólico e comunitário. Ao derrubar as barracas, o poder público desmontou uma rede de afeto e de pertencimento que fazia das praias um espaço de expressão da cultura popular.
É nesse contexto que nasce um novo tipo de barraqueiro: o influenciador digital da orla. Muitos jovens que cresceram após a demolição, filhos ou netos de antigos trabalhadores de praia, transformaram o humor e a performance nas redes em uma forma de crítica social. Mesmo sem terem vivido diretamente o período da retirada das barracas, herdaram suas memórias e compreenderam o impacto que aquele processo teve sobre as relações de trabalho, sobre a sociabilidade e sobre o direito à cidade. Esses criadores usam o riso como instrumento de denúncia, ironizando o modelo de “requalificação” que excluiu o pobre do cenário turístico e apagou a figura do barraqueiro enquanto agente fundamental do ecossistema da orla. Ao transformar as dores e ausências em piada, eles devolvem humanidade e centralidade a personagens que sustentaram a economia informal e a hospitalidade soteropolitana por décadas.
A ascensão das redes sociais criou a ilusão de que todos têm as mesmas chances de visibilidade, mas o funcionamento das big techs revela um cenário bem diferente. Plataformas como Instagram, TikTok e YouTube são guiadas por algoritmos que privilegiam conteúdos de alto engajamento comercial, enquanto vozes periféricas e narrativas críticas enfrentam barreiras invisíveis. A força dessas corporações está em transformar atenção em capital, moldando comportamentos, linguagens e até sonhos. O discurso da espontaneidade, de que basta ser autêntico para viralizar, oculta uma lógica de controle e exclusão: os sucessos que parecem naturais são, em sua maioria, produtos de estratégias sofisticadas de ranqueamento e impulsionamento pagos. A periferia, mais uma vez, entra no jogo em desvantagem, mas com uma criatividade que resiste à lógica da máquina.
Ainda assim, há um terreno em disputa. Entre a manipulação dos algoritmos e o desejo de existir publicamente, jovens negros e negras têm usado as redes para narrar suas próprias histórias e transformar o cotidiano em potência. Ao contrário do discurso meritocrático da internet, esses jovens não sonham apenas com fama ou visibilidade, sonham em mudar as suas realidades. Transformam celulares em ferramentas de trabalho, câmeras em instrumentos de denúncia e a arte em linguagem de sobrevivência. É nesse território tenso, onde a indústria tecnológica tenta padronizar o comportamento e o desejo, que emerge uma nova geração de criadores periféricos decidida a reescrever os códigos da comunicação digital.
Mas a força criativa das periferias nunca dependeu da permissão do Estado. A mesma energia que fazia brotar barracas, improviso e comércio nas praias se transformou em comunicação digital. O celular substituiu o tabuleiro, e o conteúdo virou mercadoria simbólica. É nesse contexto que surge O Corre, um projeto criado no Alto do Coqueirinho, em Itapuã, território que também sentiu os impactos das mudanças impostas à cidade e aprendeu a se reinventar com as próprias mãos.
Idealizado e produzido por Rafaela Barbosa, publicitária, diretora e produtora, O Corre reúne Reidson Portela, 22 anos, caixa; Matheus Portela, 21 anos, garçom; Adriele Sampaio, 24 anos, auxiliar de encarregado; e Jasmilene Portela, 30 anos, dona de barraca de praia. São jovens trabalhadores que, a partir de suas vivências, constroem uma narrativa própria sobre o que significa ser periférico em Salvador. Eles transformam a experiência cotidiana de trabalho, luta e humor em conteúdo audiovisual, traduzindo o corre diário da quebrada em arte, crítica e identidade.
O Corre é mais que uma página na internet: é uma forma de reocupar o espaço público simbólico que lhes foi negado. Nos vídeos gravados no Alto do Coqueirinho, a periferia se apresenta com humor e espontaneidade, mas também com consciência de classe e de território. A câmera captura o gesto, a fala e a risada como quem registra um documento vivo da Bahia real. Não há roteiros sofisticados nem filtros: há a força da oralidade, a improvisação, a energia de quem sabe transformar ausência em linguagem.
A estética do projeto é simples, mas carregada de potência. O humor, ferramenta essencial de sobrevivência, aparece como forma de crítica e como linguagem de resistência. Reidson conduz com ironia e presença firme, Matheus traz leveza e improviso, Adriele traduz a perspectiva das mulheres trabalhadoras e Jasmilene, que viveu as transformações da orla, é o elo entre o passado das barracas e o presente digital. Por trás das câmeras, Rafaela organiza, produz e dirige, uma mulher negra transformando o olhar coletivo em narrativa política e audiovisual.
Os números comprovam a força do grupo: milhões de visualizações, centenas de milhares de curtidas e compartilhamentos, e um público majoritariamente jovem e feminino, com alcance em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro. Mas o verdadeiro impacto de O Corre vai além das métricas. O projeto mostra que a periferia é produtora de linguagem, estética e pensamento. Mostra que, quando o Estado retira espaços físicos, a criatividade popular encontra meios de reconstruir territórios simbólicos.
As barracas que João Henrique derrubou renascem nas redes. Voltaram em forma de vídeo, de riso, de engajamento e de discurso. O Corre é o símbolo dessa transmutação: da areia à tela, da informalidade à inovação, da exclusão à visibilidade. Ele revela um novo ciclo da cultura periférica baiana, aquele em que o corre é arte, o beco é cenário e a voz do povo volta a ser o som mais poderoso de Salvador.
Fonte: Herlon Miguel

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Miguel Cruz | 9 de out. de 2023 | 3 min de leitura
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Nos últimos dias, fomos surpreendidos por uma notícia que terá um impacto significativo na vida das pessoas em todo o Brasil: a crise política envolvendo Marcelle Decothe, ativista política do Rio de Janeiro que ocupava o cargo de assessora especial da Ministra da Igualdade Racial, Aniele Franco.
É fundamental começar qualquer reflexão sobre esse evento prestando toda solidariedade a Marcelle. Seu erro, que foi a sua conduta ao fazer uma postagem informal, foi um equívoco com sérias consequências políticas e narrativas. No entanto, esse equívoco não justifica o linchamento público que ela vem sofrendo. Este episódio não deve apagar sua trajetória e suas valiosas contribuições para as lutas em prol do nosso povo, e esperamos que ela possa aprender e crescer com essa experiência.
O grande problema aqui é que, ao ocupar um cargo institucional, é de extrema importância manter uma postura institucional, mesmo quando nos manifestamos em nossas redes sociais pessoais. Isso ocorre porque, ao assumirmos uma posição oficial de representação e gestão pública, nossas opiniões, especialmente durante o exercício de nossas funções, refletem diretamente a posição da instituição que representamos.
Essa necessidade de manter uma postura institucional colide, atualmente, com o que podemos chamar de “plataformização” da política. Isso se refere à crescente demanda para que figuras públicas e ativistas se envolvam em dinâmicas de mobilização e engajamento nas redes sociais. A extrema-direita, representada por líderes como Trump e Bolsonaro, tem se destacado nesse ambiente, enquanto a esquerda busca acompanhar esse movimento, priorizando a busca por “curtidas” e “likes”, muitas vezes sem uma reflexão crítica sobre como essa presença virtual pode entrar em conflito com os interesses públicos e as responsabilidades inerentes aos cargos oficiais. Isso pode até mesmo prejudicar a luta mais ampla da esquerda contra o bolsonarismo.
Essa situação se torna ainda mais crítica quando consideramos o impacto do racismo e do machismo, como foi o caso de Marcelle e Aniele. É inegável que o racismo perpetua a subjugação constante das pessoas negras. A oportunidade que o racismo busca é a de afirmar: “Você vê, o preconceito também vem dos negros?”.
Tudo indica que, com a saída da assessora, a crise deve esfriar, permitindo que a Ministra Aniele prossiga com seu importante trabalho no governo Lula. Entretanto, é fundamental que saiamos deste triste episódio com um entendimento mais sólido sobre como lidar com situações desse tipo, especialmente para estimular a autorreflexão dentro da esquerda brasileira.
O linchamento político de pessoas negras é um padrão que muitas vezes resulta em julgamentos severos por ações que, embora possam ser equivocadas, são frequentemente de menor relevância. Essas ações são infladas de maneira a amplificar suas repercussões e influenciar a opinião pública a desqualificar líderes por motivos alheios às suas habilidades técnicas e suas realizações.
Nessa jornada, nomes de lideranças negras são enfraquecidos na política, a ponto de, com poucas exceções, não serem considerados para cargos relevantes.
Recordemos o caso da Ministra Matilde Ribeiro, que, influenciada por um funcionário, fez uso equivocado do cartão corporativo e, como resultado, perdeu o cargo. Da mesma forma, o então Ministro Orlando Silva foi destituído por consumir uma tapioca com o cartão corporativo, e a então Ministra Benedita da Silva foi demitida por ter comparecido a uma igreja durante uma viagem internacional. Todas essas punições revelam mais sobre o racismo do que sobre a responsabilidade no uso dos recursos públicos.
A Ministra Aniele possui um currículo excepcional na defesa dos direitos humanos e uma longa trajetória de contribuições ao antirracismo. Uma crise política gerada por um incidente como esse é, em essência, um reflexo do racismo. Enquanto gestores incompetentes muitas vezes são protegidos e defendidos, gestores negros e negras podem enfrentar consequências severas por infrações menores.
É fundamental que, nesse contexto de luta política, nossos aliados e a esquerda como um todo combatam o racismo em suas formas menos evidentes, compreendendo as complexidades e subjetividades envolvidas. O racismo estrutural não só resulta na demissão, mas também mina a trajetória e a imagem das pessoas negras.