| Herlon Miguel | 17 de jul. de 2024 |
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Futebol e ativismo combinam?

Futebol e ativismo combinam?

O futebol brasileiro possui um potencial extraordinário para influenciar a sociedade, indo muito além do mero entretenimento. Se os jogadores utilizassem sua posição privilegiada para promover mudanças sociais, poderiam exercer um impacto significativo, similar ao ativismo dos jogadores franceses, que usam sua visibilidade para lutar pela igualdade

O futebol no Brasil é mais do que um esporte, é um fenômeno social e econômico que movimenta bilhões de reais e emprega milhões de pessoas. Este texto examina como o futebol pode servir como um veículo de transformação social, destacando exemplos históricos como a Democracia Corintiana, que promoveu engajamento social e político entre os jogadores. Em contrapartida, analisamos o “Neymarismo”, uma tendência contemporânea que reflete a alienação dos jogadores brasileiros das questões sociais e políticas, em contraste com o ativismo dos jogadores franceses contra a extrema direita. Também discutimos o potencial do futebol para influenciar positivamente a sociedade, especialmente na inclusão e ascensão social de negros e pobres, e a importância do engajamento dos atletas em promover valores de igualdade, justiça e inclusão.

O futebol é uma máquina econômica

O futebol é uma das indústrias mais lucrativas do Brasil. Em 2023, o mercado do futebol brasileiro movimentou aproximadamente R$ 7,5 bilhões, destacando-se como um motor econômico vital do país. As principais fontes de receita incluem os salários dos jogadores, a venda de ingressos, os direitos de transmissão e os patrocínios. Esse robusto ecossistema não apenas entretém milhões de fãs, mas também emprega diretamente cerca de 300 mil pessoas e indiretamente outras 2 milhões, evidenciando sua importância para a economia nacional.

Um exemplo emblemático de como o futebol pode servir como um veículo de transformação social é a Democracia Corintiana. Durante a década de 1980, os jogadores do Corinthians adotaram um modelo de gestão participativa, em que todas as decisões do clube eram tomadas de forma democrática, sem hierarquias rígidas. Esse movimento não apenas melhorou o desempenho do time dentro de campo, mas também trouxe questões sociais e políticas para o centro das atenções, demonstrando o poder que os atletas possuem quando se unem por uma causa maior. Esse processo questionou tanto a ditadura militar quanto a falta de políticas que fortalecessem os profissionais do futebol em detrimento dos altíssimos lucros dos cartolas e empresários. Lideraram o movimento: Sócrates, Casagrande, Wladimir, Zenon, Biro-Biro, dentre outros.

Alienação dos jogadores brasileiros e o contraste com a atuação dos jogadores franceses

Enquanto a Democracia Corintiana serve como um exemplo inspirador do engajamento social dos atletas, a atual geração de jogadores brasileiros parece cada vez mais alienada das questões sociais e políticas. Esse fenômeno, que pode ser chamado de “Neymarismo”, reflete a postura de muitos jogadores brasileiros que se mostram distantes da realidade de pobreza e violência racial/social que afeta o país. O próprio Neymar, apesar de ter sofrido com o racismo ao longo de sua carreira, falha em debater e apoiar de forma efetiva a luta contra essas injustiças devido à sua postura política de direita.

Um exemplo recente de como essa alienação contrasta com o ativismo de jogadores em outros países pode ser visto na França. A extrema direita francesa, representada principalmente pelo partido Rassemblement National (RN), propôs uma agenda que inclui políticas anti-imigração, nacionalismo extremo e a promoção de valores tradicionais que muitas vezes marginalizam minorias étnicas e religiosas. Em resposta, os jogadores franceses, muitos dos quais são de origem imigrante, utilizaram sua visibilidade e influência para se posicionar contra essas ideologias, mostrando solidariedade e resistindo ao avanço dessas políticas discriminatórias.

Recentemente, Kylian Mbappé, um dos jogadores mais influentes do mundo, manifestou-se publicamente contra as políticas da extrema direita francesa, defendendo a diversidade e a inclusão no esporte e na sociedade. Além disso, Raí, ex-jogador do São Paulo e da seleção brasileira, e irmão de Sócrates, um dos líderes da Democracia Corintiana, também se posicionou de forma enfática contra o avanço da extrema direita na França, destacando a importância de combater o racismo e a xenofobia.

Os jogadores de futebol, em sua maioria, vêm de origens simples, filhos da classe trabalhadora. Cresceram em ambientes onde as dificuldades econômicas eram constantes e testemunharam de perto as lutas de seus pais para sustentar a família em meio a um sistema capitalista que frequentemente explora e marginaliza os trabalhadores. Diante dessa realidade, seria natural que esses jogadores desenvolvessem um sentimento de classe, compreendendo a necessidade de lutar contra um sistema que perpetua a desigualdade e a pobreza. Embora seja legítimo que eles queiram acessar melhores condições de vida e desfrutar de bens e prazeres antes inacessíveis, suas vivências deveriam inspirá-los a combater as injustiças que conheceram tão bem. Afinal, o capitalismo se alimenta das mazelas da pobreza, e quem já viveu isso tem um papel crucial na promoção de uma sociedade mais justa e igualitária.

A superficialidade e falta de engajamento

Vivemos uma geração de jogadores que, apesar de sua enorme influência e visibilidade, permanecem alheios às lutas sociais e políticas de seu país. Neymar, o exemplo mais proeminente, é um jogador que escolheu um caminho que não o permite debater ou apoiar efetivamente a luta contra essa e outras formas de injustiça. Seu recente documentário na Netflix é um reflexo claro disso. O filme pinta um retrato de um jovem superficial, fútil e mimado, sem qualquer profundidade ou consciência social.

Enquanto o documentário tenta mostrar o lado humano e os desafios pessoais de Neymar, falha em abordar questões mais profundas e relevantes, como o impacto de sua influência na sociedade ou sua postura política e social. Em um momento em que o Brasil enfrenta crescentes desafios sociais e políticos, a falta de engajamento de figuras públicas como Neymar representa uma oportunidade perdida de promover mudanças significativas.

O futebol brasileiro possui um imenso potencial econômico e social. Enquanto continua a gerar bilhões de reais e milhões de empregos, ele também tem a capacidade de ser um agente de transformação social. O exemplo da Democracia Corintiana nos anos 1980 e o recente ativismo dos jogadores franceses contra a extrema direita mostram que os atletas podem e devem se envolver em questões além do campo de jogo. A alienação dos jogadores brasileiros contemporâneos, exemplificada pelo “Neymarismo”, representa uma perda significativa, não apenas para o esporte, mas para a sociedade como um todo. Em tempos de polarização política e social, é essencial que figuras públicas utilizem sua influência para promover valores de igualdade, justiça e inclusão.

O futebol brasileiro possui um potencial extraordinário para influenciar os jovens e a sociedade de maneira ampla, indo muito além do mero entretenimento esportivo. Se os jogadores utilizassem sua posição privilegiada para promover mudanças sociais, poderiam exercer um impacto significativo, similar ao ativismo observado entre os jogadores franceses, que usam sua visibilidade para lutar pela igualdade. Muitos desses atletas vivenciaram a pobreza e a miséria, tornando-os especialmente sensíveis às injustiças sociais. No entanto, não se pode culpá-los inteiramente por sua alienação. O capitalismo fomenta um fetiche por bens e prazeres superficiais, alienando os indivíduos ao oferecer a promessa de sucesso individual. Enquanto essa dinâmica persistir, as mudanças estruturais serão difíceis e as injustiças continuarão a prevalecer.


Fonte: Herlon Miguel

Miguel Cruz | 9 de out. de 2023 | 3 min de leitura

O racismos nos espaços de poder

Nos últimos dias, fomos surpreendidos por uma notícia que terá um impacto significativo na vida das pessoas em todo o Brasil: a crise política envolvendo Marcelle Decothe, ativista política do Rio de Janeiro que ocupava o cargo de assessora especial da Ministra da Igualdade Racial, Aniele Franco. 

É fundamental começar qualquer reflexão sobre esse evento prestando toda solidariedade a Marcelle. Seu erro, que foi a sua conduta ao fazer uma postagem informal, foi um equívoco com sérias consequências políticas e narrativas. No entanto, esse equívoco não justifica o linchamento público que ela vem sofrendo. Este episódio não deve apagar sua trajetória e suas valiosas contribuições para as lutas em prol do nosso povo, e esperamos que ela possa aprender e crescer com essa experiência. 

O grande problema aqui é que, ao ocupar um cargo institucional, é de extrema importância manter uma postura institucional, mesmo quando nos manifestamos em nossas redes sociais pessoais. Isso ocorre porque, ao assumirmos uma posição oficial de representação e gestão pública, nossas opiniões, especialmente durante o exercício de nossas funções, refletem diretamente a posição da instituição que representamos. 

Essa necessidade de manter uma postura institucional colide, atualmente, com o que podemos chamar de “plataformização” da política. Isso se refere à crescente demanda para que figuras públicas e ativistas se envolvam em dinâmicas de mobilização e engajamento nas redes sociais. A extrema-direita, representada por líderes como Trump e Bolsonaro, tem se destacado nesse ambiente, enquanto a esquerda busca acompanhar esse movimento, priorizando a busca por “curtidas” e “likes”, muitas vezes sem uma reflexão crítica sobre como essa presença virtual pode entrar em conflito com os interesses públicos e as responsabilidades inerentes aos cargos oficiais. Isso pode até mesmo prejudicar a luta mais ampla da esquerda contra o bolsonarismo. 

Essa situação se torna ainda mais crítica quando consideramos o impacto do racismo e do machismo, como foi o caso de Marcelle e Aniele. É inegável que o racismo perpetua a subjugação constante das pessoas negras. A oportunidade que o racismo busca é a de afirmar: “Você vê, o preconceito também vem dos negros?”. 

Tudo indica que, com a saída da assessora, a crise deve esfriar, permitindo que a Ministra Aniele prossiga com seu importante trabalho no governo Lula. Entretanto, é fundamental que saiamos deste triste episódio com um entendimento mais sólido sobre como lidar com situações desse tipo, especialmente para estimular a autorreflexão dentro da esquerda brasileira. 

O linchamento político de pessoas negras é um padrão que muitas vezes resulta em julgamentos severos por ações que, embora possam ser equivocadas, são frequentemente de menor relevância. Essas ações são infladas de maneira a amplificar suas repercussões e influenciar a opinião pública a desqualificar líderes por motivos alheios às suas habilidades técnicas e suas realizações. 

Nessa jornada, nomes de lideranças negras são enfraquecidos na política, a ponto de, com poucas exceções, não serem considerados para cargos relevantes. 

Recordemos o caso da Ministra Matilde Ribeiro, que, influenciada por um funcionário, fez uso equivocado do cartão corporativo e, como resultado, perdeu o cargo. Da mesma forma, o então Ministro Orlando Silva foi destituído por consumir uma tapioca com o cartão corporativo, e a então Ministra Benedita da Silva foi demitida por ter comparecido a uma igreja durante uma viagem internacional. Todas essas punições revelam mais sobre o racismo do que sobre a responsabilidade no uso dos recursos públicos. 

A Ministra Aniele possui um currículo excepcional na defesa dos direitos humanos e uma longa trajetória de contribuições ao antirracismo. Uma crise política gerada por um incidente como esse é, em essência, um reflexo do racismo. Enquanto gestores incompetentes muitas vezes são protegidos e defendidos, gestores negros e negras podem enfrentar consequências severas por infrações menores. 

É fundamental que, nesse contexto de luta política, nossos aliados e a esquerda como um todo combatam o racismo em suas formas menos evidentes, compreendendo as complexidades e subjetividades envolvidas. O racismo estrutural não só resulta na demissão, mas também mina a trajetória e a imagem das pessoas negras.

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