Racismo estrutural
O racismo estrutural que atravessa a sociedade brasileira impôs barreiras históricas à presença negra no audiovisual
No mês de novembro comemora-se Zumbi e Dandara de Palmares, símbolos da luta contra a escravidão e da construção de um Brasil mais justo. Nada mais emblemático, portanto, do que a estreia, em 2 de outubro de 2025, da superprodução nacional Malês.
Malês é um drama histórico dirigido por Antônio Pitanga e roteirizado por Manuela Dias, produzido pela Obá Cacauê Produções. O filme narra a Revolta dos Malês, levante de escravizados muçulmanos em Salvador, em 1835. A trama acompanha dois jovens africanos muçulmanos separados pela escravidão e reunidos pela resistência, explorando temas como racismo estrutural, identidade religiosa, união entre povos e luta por liberdade. O elenco reúne Rocco Pitanga, Camila Pitanga, Samira Carvalho, Rodrigo de Odé, Heraldo de Deus, Edvana Carvalho, Patrícia Pillar, Wilson Rabelo e o próprio Antônio Pitanga. Ao entrelaçar personagens históricos e ficcionais, o filme busca não apenas retratar a insurreição dos Malês, mas também refletir sobre a ausência e a urgência da presença negra nas telas brasileiras, afirmando a centralidade da resistência e da memória na construção de um imaginário coletivo.
Em meio ao atual cenário de lançamentos e renovação do cinema brasileiro, continua urgente o debate sobre a presença negra nas telas. A ausência dessa presença no audiovisual é expressão direta do racismo estrutural. Se TV e cinema moldam imaginários, forjam valores, mitos, heróis e vilões, a pergunta persiste: onde está a população negra na frente e atrás das câmeras?
Nos últimos anos, diferentes levantamentos já indicavam essa desigualdade. Em 2016, o Informe de Diversidade de Gênero e Raça da ANCINE mostrou que apenas 2,1% dos diretores de longas- metragens lançados em salas de exibição eram negros, enquanto brancos ocupavam mais de 75% das funções de direção, roteiro e produção. O mesmo relatório revelou que, no elenco principal, apenas 11% eram atores negros, número muito distante da proporção da população negra no Brasil.
Em 2021, o GEMAA/IESP-UERJ reforçou esses dados ao demonstrar que, entre os filmes de grande público exibidos de 1995 a 2019, menos de 3% tiveram diretores negros e apenas 2% contaram com protagonistas negros, revelando uma estrutura de sub-representação persistente.
Já em 2022, o OLMA apontou que pessoas negras no Brasil recebiam, em média, 40% menos que pessoas brancas em ocupações equivalentes. Pesquisas qualitativas realizadas pelo GEMAA e pela USP (2019-2022) indicaram que produtores e técnicos negros enfrentam barreiras adicionais para acessar editais, patrocínios e distribuição, o que repercute na circulação restrita e em ganhos reduzidos de suas produções.
Nos levantamentos mais recentes, a desigualdade racial no audiovisual brasileiro continua evidente. Em 2023, o GEMAA/IESP-UERJ analisou o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro (2002-2023) e constatou que mais de 80% dos indicados e vencedores eram brancos, enquanto negros e pardos apareciam como exceções, sobretudo em categorias técnicas ou de elenco coadjuvante. Entre 2002 e 2023, apenas dois diretores negros foram indicados ao prêmio. No recorte de 2022, o grupo destacou que, embora nenhum dos dez filmes de maior público brasileiro tenha sido dirigido por uma mulher, dois homens negros, Lázaro Ramos (Medida Provisória) e Gabriel Martins (Marte Um, fruto de edital afirmativo específico), alcançaram grande visibilidade. Esses casos, contudo, permanecem exceções e não sinalizam uma mudança estrutural.
Não deveríamos precisar de um cinema negro. O cinema, em sua essência, já deveria abarcar todas as vozes, corpos e experiências humanas. No entanto, o racismo estrutural que atravessa a sociedade brasileira impôs barreiras históricas à presença negra no audiovisual. É nesse contexto que o cinema negro se ergue não apenas como linguagem, mas como uma demarcação política. Ele nasce como um território de disputa simbólica, de afirmação e de sobrevivência cultural. É o gesto de dizer: existimos, resistimos e narramos nossas próprias histórias.
Dentro desse movimento, a trajetória do artista baiano, Heraldo, ganha relevo. Ator, roteirista e diretor, ele construiu um percurso marcado pela versatilidade e pela convicção de que a arte é instrumento de transformação. Formado na 27ª turma do Curso Livre de Teatro da UFBA, destacou-se em Mar Morto Revivido, dirigido por Paulo Cunha, e desde então integrou montagens que o consolidaram como intérprete de presença singular, como Escola de Bufões, de Antônio Fábio, Compadre de Ogum, de Edvard Passos, e Gusmão: O anjo negro e sua legião, de Tom Conceição, na qual foi protagonista. Sua trajetória no palco reafirma um compromisso constante com narrativas que atravessam dimensões sociais, raciais e humanas.
No cinema, o ator ampliou ainda mais sua atuação. Como integrante do coletivo Sujeito Filmes, assinou roteiros, direção e preparação de elenco em produções como Cinco Fitas (2020), premiado em festivais nacionais e internacionais. Atuou em curtas como Até Provar que Não, Meu Pai e a Praia e O Homem que Virou Castanha (2023), dirigido por Natan Fox, no qual foi protagonista, e em longas como Tungstênio, de Heitor Dhalia, Longe do Paraíso, de Orlando Senna, Saudade Fez Morada Aqui Dentro, da Plano 3 Filmes, e Malês, de Antônio Pitanga. Também participou de produções televisivas de grande alcance, como Segundo Sol (Globo), Valor da Vida (TVI/Portugal), Juacas (Disney) e Cangaço Novo (Amazon Prime). Essa multiplicidade de experiências reafirma sua capacidade de projetar, em diferentes linguagens, a centralidade da presença negra no audiovisual baiano.
Seu envolvimento em projetos como a Casa Chica Xavier, voltada à produção audiovisual negra, e sua defesa de um cinema que valoriza as múltiplas formas de fala presentes no estado exemplificam uma atuação comprometida com a diversidade regional. Para ele, não se pode reduzir a riqueza linguística a sotaque regional, quando o que está fora do eixo Sudeste ainda é frequentemente marginalizado. Além disso, defende uma concepção de elenco que busca pluralidade real, valorizando artistas do Norte e Nordeste sem concentrar a representatividade em poucos nomes. Se, no presente, a presença negra nas telas pode surgir por meio de políticas de cotas, a meta é que esse espaço se consolide de forma permanente.
Em 2017, junto com Vilma Carla Martins e Djalma Calmon, fundou a Sujeito Filmes, produtora dedicada à criação de um cinema autoral que pensa o protagonismo negro em todas as etapas de produção. Desde então, já foram nove curtas realizados entre produções e coproduções, e a produtora se prepara para lançar seus dois primeiros longas-metragens, ainda em fase de produção.
Com sua arte e seu corpo presente, o ator é parte desse processo de reivindicação. Sua carreira demonstra que cada filme, cada espetáculo e cada roteiro assinado por um artista negro é mais do que obra: é ato político. E, enquanto o racismo seguir estruturando ausências, será também resistência. Malês, nesse percurso, não é apenas um registro histórico, mas um chamado ao presente, um convite a refletir sobre o que permanece vivo daquela revolta no Brasil de hoje.
As experiências do intérprete ajudam a apontar caminhos que vão além da simples denúncia. Sua trajetória evidencia que políticas afirmativas no audiovisual precisam dialogar diretamente com a circulação: é essencial que as plataformas de streaming, hoje centrais no consumo audiovisual, adotem percentuais mínimos de obras nacionais e, dentro delas, garantam espaço significativo para produções dirigidas ou protagonizadas por pessoas negras.
Da mesma forma, as plataformas internacionais devem, em contrapartida ao enorme lucro obtido com o público brasileiro, assegurar a presença constante de filmes nacionais em catálogos estrangeiros, acompanhada de campanhas de divulgação consistentes. Essa não é uma questão de caridade, mas de fortalecimento estrutural do mercado audiovisual, garantindo diversidade e sustentabilidade para os profissionais do setor.
Ele fez a escolha corajosa de ser artista em um país onde o trabalho subalternizado ainda é o destino imposto à maioria das pessoas negras. Em um contexto em que o racismo organiza as condições mínimas de existência, sua decisão de criar e ocupar espaços de expressão é também um gesto político, o de disputar, com arte, o direito de imaginar e construir outras formas de viver.
Projetos como a Sujeito Filmes demonstram que o fortalecimento de coletivos, produtoras independentes e polos regionais é um caminho para descentralizar o eixo do audiovisual, valorizando a produção do Norte e do Nordeste. Mais do que abrir portas individuais, é preciso consolidar circuitos de exibição alternativos, fomentar a educação para o audiovisual em escolas e universidades e criar linhas específicas de financiamento para distribuição e marketing de obras negras.
O cinema negro, portanto, não é apenas estética ou gênero, mas uma estratégia de disputa política da cultura. Heraldo é parte de uma engrenagem maior, de um movimento que remonta ao Teatro Experimental do Negro, criado por artistas que souberam reconfigurar o presente e reescrever o futuro. Um futuro tecido com o cuidado de uma composição que reflita todos os brasileiros em suas proporções, nuances e cores.
Fonte: Herlon Miguel

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Miguel Cruz | 9 de out. de 2023 | 3 min de leitura
O racismos nos espaços de poder
Nos últimos dias, fomos surpreendidos por uma notícia que terá um impacto significativo na vida das pessoas em todo o Brasil: a crise política envolvendo Marcelle Decothe, ativista política do Rio de Janeiro que ocupava o cargo de assessora especial da Ministra da Igualdade Racial, Aniele Franco.
É fundamental começar qualquer reflexão sobre esse evento prestando toda solidariedade a Marcelle. Seu erro, que foi a sua conduta ao fazer uma postagem informal, foi um equívoco com sérias consequências políticas e narrativas. No entanto, esse equívoco não justifica o linchamento público que ela vem sofrendo. Este episódio não deve apagar sua trajetória e suas valiosas contribuições para as lutas em prol do nosso povo, e esperamos que ela possa aprender e crescer com essa experiência.
O grande problema aqui é que, ao ocupar um cargo institucional, é de extrema importância manter uma postura institucional, mesmo quando nos manifestamos em nossas redes sociais pessoais. Isso ocorre porque, ao assumirmos uma posição oficial de representação e gestão pública, nossas opiniões, especialmente durante o exercício de nossas funções, refletem diretamente a posição da instituição que representamos.
Essa necessidade de manter uma postura institucional colide, atualmente, com o que podemos chamar de “plataformização” da política. Isso se refere à crescente demanda para que figuras públicas e ativistas se envolvam em dinâmicas de mobilização e engajamento nas redes sociais. A extrema-direita, representada por líderes como Trump e Bolsonaro, tem se destacado nesse ambiente, enquanto a esquerda busca acompanhar esse movimento, priorizando a busca por “curtidas” e “likes”, muitas vezes sem uma reflexão crítica sobre como essa presença virtual pode entrar em conflito com os interesses públicos e as responsabilidades inerentes aos cargos oficiais. Isso pode até mesmo prejudicar a luta mais ampla da esquerda contra o bolsonarismo.
Essa situação se torna ainda mais crítica quando consideramos o impacto do racismo e do machismo, como foi o caso de Marcelle e Aniele. É inegável que o racismo perpetua a subjugação constante das pessoas negras. A oportunidade que o racismo busca é a de afirmar: “Você vê, o preconceito também vem dos negros?”.
Tudo indica que, com a saída da assessora, a crise deve esfriar, permitindo que a Ministra Aniele prossiga com seu importante trabalho no governo Lula. Entretanto, é fundamental que saiamos deste triste episódio com um entendimento mais sólido sobre como lidar com situações desse tipo, especialmente para estimular a autorreflexão dentro da esquerda brasileira.
O linchamento político de pessoas negras é um padrão que muitas vezes resulta em julgamentos severos por ações que, embora possam ser equivocadas, são frequentemente de menor relevância. Essas ações são infladas de maneira a amplificar suas repercussões e influenciar a opinião pública a desqualificar líderes por motivos alheios às suas habilidades técnicas e suas realizações.
Nessa jornada, nomes de lideranças negras são enfraquecidos na política, a ponto de, com poucas exceções, não serem considerados para cargos relevantes.
Recordemos o caso da Ministra Matilde Ribeiro, que, influenciada por um funcionário, fez uso equivocado do cartão corporativo e, como resultado, perdeu o cargo. Da mesma forma, o então Ministro Orlando Silva foi destituído por consumir uma tapioca com o cartão corporativo, e a então Ministra Benedita da Silva foi demitida por ter comparecido a uma igreja durante uma viagem internacional. Todas essas punições revelam mais sobre o racismo do que sobre a responsabilidade no uso dos recursos públicos.
A Ministra Aniele possui um currículo excepcional na defesa dos direitos humanos e uma longa trajetória de contribuições ao antirracismo. Uma crise política gerada por um incidente como esse é, em essência, um reflexo do racismo. Enquanto gestores incompetentes muitas vezes são protegidos e defendidos, gestores negros e negras podem enfrentar consequências severas por infrações menores.
É fundamental que, nesse contexto de luta política, nossos aliados e a esquerda como um todo combatam o racismo em suas formas menos evidentes, compreendendo as complexidades e subjetividades envolvidas. O racismo estrutural não só resulta na demissão, mas também mina a trajetória e a imagem das pessoas negras.