A Força do Afropunk: Impactos Culturais e Econômicos na Bahia
O Afropunk, criado por James Spooner e Matthew Morgan, surgiu em Nova York, nos Estados Unidos, e se espalhou globalmente, incluindo cidades como Paris, Londres, Atlanta e Joanesburgo. Esse movimento cultural celebra a interseção da cultura afrodescendente com a música, moda, arte e individualidade, promovendo autenticidade e desafiando normas sociais. Os festivais Afropunk, realizados em diversas cidades, reúnem artistas e ativistas com o objetivo de celebrar a cultura negra de maneira única.
A última edição do Afropunk em Salvador, em 2022, foi um evento criativo e culturalmente enriquecedor, apresentando renomados artistas afrodescendentes, como Seu Jorge, Xenia França e Emicida, que emocionaram o público com músicas poderosas e mensagens de empoderamento. Além da música, o evento destacou a moda afropunk com desfiles e exposições de estilistas locais, celebrando a expressão de estilo da comunidade negra e reforçando seu compromisso com a igualdade e a diversidade, tornando-se uma vibrante celebração da riqueza da cultura afro-brasileira e global.
O Afropunk, além de seu impacto cultural, também exerce uma influência significativa na economia local onde acontece. Nos festivais Afropunk, como o que ocorreu em Salvador, o evento atraiu uma grande quantidade de visitantes, tanto locais quanto de outras regiões e até países, impulsionando o setor de turismo e lazer da cidade. Isso gerou um movimento de muito trabalho, ativando a cadeia produtiva do empreendedorismo negro de forma abrangente. Desde a venda de roupas afrocentradas até os serviços de trançadeiras, bares, maquiagem e diversos outros negócios, a economia local foi impulsionada de forma notável.
O Afropunk é uma experiência de vivência com o antirracismo gerando renda, emprego, relações e trabalho. Restaurantes gerenciados por empreendedores negros frequentemente se beneficiam desse influxo de visitantes, tornando-se destinos populares para experimentar a culinária afro-brasileira autêntica. Além disso, o mercado da moda afropunk, destacado nos desfiles e exposições, oferece oportunidades para trançadeiras e designers locais, impulsionando a economia criativa da região.
Com base na experiência do Rock in Rio, o Afropunk tem o potencial de se tornar um evento ainda mais impactante, gerando significativos empregos e renda. Enquanto o Rock in Rio é reconhecido como um gigante para a música e a economia local, injetando impressionantes R$ 1,7 bilhão na economia, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), outros festivais musicais ao redor do mundo demonstraram como esses eventos podem influenciar positivamente as economias locais. Por exemplo, o Festival de Música Coachella, na Califórnia, contribuiu com mais de US$ 400 milhões para a economia do condado de Riverside em 2019, de acordo com um relatório da Universidade da Califórnia. O Afropunk, com seu foco na cultura afrodescendente e na diversidade, tem o potencial de não apenas enriquecer culturalmente as comunidades, mas também de impulsionar a economia local, criando empregos e oportunidades de negócios.
Dessa forma, é crucial que os governos da Bahia e de Salvador reconheçam o valor do Afropunk e o impacto positivo que ele traz para a região. Manter Salvador como sede desse evento é fundamental para a economia local e para promover a cultura afro-brasileira. Políticas públicas que fortaleçam o Afropunk na Bahia são necessárias para garantir que o evento continue a crescer e a prosperar, proporcionando oportunidades econômicas e culturais para a comunidade local. Valorizar e apoiar o Afropunk é um passo importante em direção à promoção da igualdade e da diversidade na região, ao mesmo tempo em que se fortalece a identidade cultural afro-brasileira.
Fonte: Herlon Miguel
Miguel Cruz | 9 de out. de 2023 | 3 min de leitura
O racismos nos espaços de poder
Nos últimos dias, fomos surpreendidos por uma notícia que terá um impacto significativo na vida das pessoas em todo o Brasil: a crise política envolvendo Marcelle Decothe, ativista política do Rio de Janeiro que ocupava o cargo de assessora especial da Ministra da Igualdade Racial, Aniele Franco.
É fundamental começar qualquer reflexão sobre esse evento prestando toda solidariedade a Marcelle. Seu erro, que foi a sua conduta ao fazer uma postagem informal, foi um equívoco com sérias consequências políticas e narrativas. No entanto, esse equívoco não justifica o linchamento público que ela vem sofrendo. Este episódio não deve apagar sua trajetória e suas valiosas contribuições para as lutas em prol do nosso povo, e esperamos que ela possa aprender e crescer com essa experiência.
O grande problema aqui é que, ao ocupar um cargo institucional, é de extrema importância manter uma postura institucional, mesmo quando nos manifestamos em nossas redes sociais pessoais. Isso ocorre porque, ao assumirmos uma posição oficial de representação e gestão pública, nossas opiniões, especialmente durante o exercício de nossas funções, refletem diretamente a posição da instituição que representamos.
Essa necessidade de manter uma postura institucional colide, atualmente, com o que podemos chamar de “plataformização” da política. Isso se refere à crescente demanda para que figuras públicas e ativistas se envolvam em dinâmicas de mobilização e engajamento nas redes sociais. A extrema-direita, representada por líderes como Trump e Bolsonaro, tem se destacado nesse ambiente, enquanto a esquerda busca acompanhar esse movimento, priorizando a busca por “curtidas” e “likes”, muitas vezes sem uma reflexão crítica sobre como essa presença virtual pode entrar em conflito com os interesses públicos e as responsabilidades inerentes aos cargos oficiais. Isso pode até mesmo prejudicar a luta mais ampla da esquerda contra o bolsonarismo.
Essa situação se torna ainda mais crítica quando consideramos o impacto do racismo e do machismo, como foi o caso de Marcelle e Aniele. É inegável que o racismo perpetua a subjugação constante das pessoas negras. A oportunidade que o racismo busca é a de afirmar: “Você vê, o preconceito também vem dos negros?”.
Tudo indica que, com a saída da assessora, a crise deve esfriar, permitindo que a Ministra Aniele prossiga com seu importante trabalho no governo Lula. Entretanto, é fundamental que saiamos deste triste episódio com um entendimento mais sólido sobre como lidar com situações desse tipo, especialmente para estimular a autorreflexão dentro da esquerda brasileira.
O linchamento político de pessoas negras é um padrão que muitas vezes resulta em julgamentos severos por ações que, embora possam ser equivocadas, são frequentemente de menor relevância. Essas ações são infladas de maneira a amplificar suas repercussões e influenciar a opinião pública a desqualificar líderes por motivos alheios às suas habilidades técnicas e suas realizações.
Nessa jornada, nomes de lideranças negras são enfraquecidos na política, a ponto de, com poucas exceções, não serem considerados para cargos relevantes.
Recordemos o caso da Ministra Matilde Ribeiro, que, influenciada por um funcionário, fez uso equivocado do cartão corporativo e, como resultado, perdeu o cargo. Da mesma forma, o então Ministro Orlando Silva foi destituído por consumir uma tapioca com o cartão corporativo, e a então Ministra Benedita da Silva foi demitida por ter comparecido a uma igreja durante uma viagem internacional. Todas essas punições revelam mais sobre o racismo do que sobre a responsabilidade no uso dos recursos públicos.
A Ministra Aniele possui um currículo excepcional na defesa dos direitos humanos e uma longa trajetória de contribuições ao antirracismo. Uma crise política gerada por um incidente como esse é, em essência, um reflexo do racismo. Enquanto gestores incompetentes muitas vezes são protegidos e defendidos, gestores negros e negras podem enfrentar consequências severas por infrações menores.
É fundamental que, nesse contexto de luta política, nossos aliados e a esquerda como um todo combatam o racismo em suas formas menos evidentes, compreendendo as complexidades e subjetividades envolvidas. O racismo estrutural não só resulta na demissão, mas também mina a trajetória e a imagem das pessoas negras.