Miguel Cruz | 9 de out. de 2023 | 3 min de leitura
Colocar a comunicação em negrito: disputando as narrativas na internet
Colocar algo em negrito, no campo da linguagem, é um recurso de destaque, de ênfase, de atribuição de importância. Trata-se de uma escolha gráfica, mas também simbólica. O negrito chama atenção para o que não pode passar despercebido, para aquilo que exige leitura cuidadosa. Ao longo do tempo, porém, a palavra negro e tudo o que dela deriva foram deslocados para o campo do negativo, do perigo e da ausência. A coisa ficou preta, nuvem negra, lista negra, mercado negro. Expressões naturalizadas que associam o negro ao erro, à crise, ao medo e à ilegalidade, produzindo sentidos que atravessam o cotidiano e moldam percepções sociais.
A linguagem não é neutra, nem a comunicação. Ela organiza o mundo, estrutura imaginários e sustenta hierarquias. Quando o negro aparece reiteradamente como sinônimo de problema, ameaça ou falha, não se trata apenas de uma questão semântica, mas de um mecanismo simbólico de reprodução do racismo. Ressignificar, portanto, é um gesto político. É disputar sentidos, deslocar significados e devolver centralidade àquilo que foi historicamente marginalizado.
A internet consolidou-se, nas últimas duas décadas, como um dos principais espaços de produção de sentido na sociedade brasileira. Mais do que um meio de comunicação, passou a operar como ambiente estruturante da vida social, política e cultural, onde valores são forjados, consensos são construídos e conflitos ganham visibilidade. O que antes era mediado por instituições clássicas como escolas, universidades, partidos políticos e veículos tradicionais de imprensa hoje circula de forma fragmentada, acelerada e, muitas vezes, desancorada de referências históricas e conceituais. Nesse cenário, opiniões passam a ser tratadas como verdades, experiências individuais são elevadas à condição de regra geral e conceitos complexos são consumidos em versões simplificadas, quando não distorcidas.
As redes sociais intensificaram esse processo ao transformar o debate público em um espaço marcado pela lógica da performance. A visibilidade tornou-se um valor central, frequentemente superior à consistência argumentativa ou ao compromisso ético com a transformação social. Curtidas, compartilhamentos e engajamento passaram a funcionar como métricas de legitimidade, criando a ilusão de que aquilo que circula mais é, necessariamente, aquilo que é mais verdadeiro, relevante ou justo. Nesse ambiente, a complexidade perde espaço para frases de efeito, a reflexão cede lugar à reação imediata e a disputa política se converte, muitas vezes, em espetáculo.
No campo do antirracismo, essas dinâmicas se manifestam de forma ainda mais intensa. A questão racial no Brasil sempre esteve atravessada por disputas simbólicas profundas, marcadas pelo apagamento histórico, pela negação do conflito e pela naturalização das desigualdades. A internet não cria o racismo, mas oferece novas formas para que ele se atualize, se disfarce e se reorganize. Termos são esvaziados de sentido, lutas históricas são reduzidas a slogans e conceitos construídos ao longo de décadas de reflexão intelectual e militância política passam a circular desconectados de suas bases teóricas e de seus contextos de surgimento.
Nesse ambiente, conquistas coletivas são frequentemente apropriadas como vitórias individuais. Histórias de ascensão pessoal passam a ser apresentadas como prova de que o racismo foi superado ou de que basta esforço individual para vencer barreiras estruturais. O racismo estrutural, por sua vez, é reduzido a episódios isolados ou a desvios de conduta, como se não fosse um sistema que atravessa instituições, políticas públicas, mercados de trabalho, territórios e imaginários sociais. Essa redução opera politicamente ao deslocar o foco das estruturas para os indivíduos, esvaziando a crítica e fragilizando a luta coletiva.
Disputar narrativas na internet, portanto, não é apenas uma estratégia de comunicação ou de ampliação de alcance. Trata-se de uma tarefa política central para quem compreende que a linguagem organiza o mundo, legitima hierarquias e produz consensos. As palavras que escolhemos, os conceitos que utilizamos e as histórias que contamos não são apenas formas de expressão, mas instrumentos de poder. Nomear é disputar. Silenciar também. Em um país marcado por uma longa história de escravização, colonialismo e desigualdade racial, a disputa simbólica é parte constitutiva da disputa material.
É a partir dessa compreensão que se inscreve a Negrito Lab. A plataforma nasce do compromisso com uma comunicação orientada pelos valores da igualdade, da liberdade e da democracia, entendendo o ato de comunicar como escolha, posicionamento e responsabilidade pública. Mais do que informar ou entreter, propõe-se a atuar como um espaço de produção de sentidos atento à diversidade de opiniões e às múltiplas realidades que compõem o Brasil.
A Negrito Lab é uma iniciativa brasileira voltada ao midiativismo e ao empreendedorismo negro, concebida como um laboratório de formação, capacitação e comunicação para pessoas negras. Seu objetivo é fortalecer vozes, projetos e narrativas negras nos campos da comunicação, da cultura e do empreendedorismo, compreendidos como territórios estratégicos de disputa simbólica e transformação social.
Acreditamos em uma comunicação construtiva, crítica e comprometida com a ampliação de horizontes. Por isso, a plataforma articula processos formativos com a criação de oportunidades concretas, conectando reflexão, produção de conteúdo e circulação pública de ideias. O midiativismo, nesse contexto, não se limita à presença nas redes, mas se afirma como ação política organizada, capaz de tensionar discursos hegemônicos e qualificar o debate público.
Ao inspirar novos escritores, leitores e pensadores críticos, a Negrito Lab se coloca como ponto de partida para quem busca uma perspectiva renovada sobre o mundo. Trata-se de um projeto que entende a comunicação como ferramenta central para disputar sentidos, cuidar das palavras e contribuir de forma concreta para a construção de um diálogo público mais ético, plural e democrático.
Criada por Herlon Miguel, a Negrito Lab dialoga com outras experiências de capacitação e comunicação voltadas para autores e autoras negras, consolidando-se como um espaço coletivo de escrita, pensamento e intervenção social.